
As relações humanas são complicadas. Redes intrincadas de trocas, encontros, desencontros, correspondências e corações quebrados.
Está na natureza do ser humano o contacto entre si, a troca, a partilha. Aprendemos juntos, sonhamos juntos, destruímos juntos.
Muito se estuda e se descobre sobre o ser humano, e mesmo assim, ele continua a ser o maior mistério do mundo.
Somos de facto muito complexos. A diversidade de pensamentos, gostos e ideais é tão imensa, que mergulhamos num mar sem fim. Cada pessoa demonstra-se a cada minuto um universo particular, do qual nem o próprio percebe a verdadeira profundidade, ou os elementos que o compõem.
É difícil viver entre pessoas. Muito. É também difícil vivermos connosco próprios. E cansa. Muito.
E sabem o que acho mais incrível? É que no meio de tanto conflito que geramos uns com os outros, pelas nossas diferenças, acabamos por nem sequer nos dar conta de que todos queremos o mesmo. Todos queremos ser felizes. Todos queremos ser amados, e depois amar. E falhamos tão redondamente, na maioria dos casos…
Acredito que dos maiores problemas no meio de tudo sejamos nós, e o nosso egoísmo. Porque vivemos para nos satisfazer, para nos sentirmos completos. Queremos alguém que encaixe em nós, mas temos dificuldade em encaixar na vida dos outros. Queremos pessoas que preencham o cenário que montamos da nossa vida, mas muitas vezes esquecemo-nos de moldar o nosso mundo às pessoas que nele entram.
E acabamos a sentir-nos sozinhos, no meio de imensa gente.
Preocupa-me especialmente a relação entre duas pessoas, uma ligação amorosa. Com o tempo, com as conversas e desabafos que ouço, dou-me conta do quanto esse é um terreno complexo, e cheio de minas. E porquê? O amor não deveria ser mais simples?
Vejo pessoas que, pela geração a que pertencem, mantêm-se em casamentos infelizes (acho que até o conceito de casamento da época deles é diferente do actual). Acordam, vivem e dormem ao lado de uma pessoa que não os preenche, não os sente, e não sentem. São dois conhecidos estranhos, já se viram até ao fundo da alma, e desistem de se conhecer mais, não se dando conta de que estamos sempre a mudar e há sempre algo para conhecer. Entristece-me falar com estas pessoas, e ver que se conformam em não serem felizes. Deixam a vida passar-lhes diante dos olhos.
Mas o oposto também se tem manifestado uma triste realidade. Pessoas que, nos seus 40 e tal anos, ficam sozinhos pelos mais diversos motivos (divórcios, viuvez ou até mesmo por nunca terem casado), e entram numa selva cheia de feras e armadilhas. Procuram alguém, todos eles. Mas não se vêem. Todos têm medo, todos se defendem. Estão tão habituados a um modo de vida, que não conseguem adaptar-se a alguém. São corações fechados, que querem mas não confiam no amor. Não estão dispostos a mudar para se enquadrarem com a outra pessoa, e assim apenas sofrem, e separam-se. É uma busca constante, infrutífera. É uma solidão avassaladora…
Pegando na ideia dos solteiros, também me surpreende a quantidade de pessoas que hoje em dia, constroem uma vida só. Dizem não precisar de ninguém, e apreciarem a liberdade de terem o seu espaço todo para fazerem o que desejam e como desejam. Habituam-se a isso, e depois, quando o coração cede à atracção natural por alguém, têm o problema que referi antes: não conseguem ter alguém na vida deles, nem estar na vida de ninguém. E passa-se assim uma vida, com muitos amigos, e um ou outro companheiro ocasional. E muita falta de amor…
E há ainda aqueles que, casando, não precisam de muito para resolverem divorciar-se. São opostos: uns entregues e conformados com um casamento infeliz, outros que nem tentam resolver os problemas.
Não quero com esta reflexão julgar as escolhas de ninguém, de modo nenhum. Estou a ser sincera quando digo que esta instabilidade me preocupa. Acredito que grande parte dela vem do facto de sermos cada vez mais livres nas possibilidades infinitas de escolhas para a nossa vida. Antes, casávamos com alguém da nossa rua ou das imediações mais próximas. Hoje, temos os nossos horizontes tão alargados, que a escolha nos faz perder e acabar por não nos satisfazer com nada. Acreditamos que há sempre melhor. E não raro, acabamos a viver o Presente sem o viver realmente.
Preocupa-me que assim estejamos a transformar-nos numa humanidade incrivelmente solitária, apesar de cada vez mais os meios sociais se expandirem, e podermos até ter amigos do outro lado do mundo. Temos tanta coisa à nossa volta, que nunca chegamos realmente a conhecer as pessoas, e ninguém chega a conhecer-nos a nós. E isso distancia-nos cada vez mais do nosso objectivo de sermos felizes.
Espero que possamos em breve perceber que a felicidade passa também por abrirmos o nosso mundo àqueles que estão connosco, e querermos também entrar no mundo dessas pessoas. Só de mãos dadas conseguiremos caminhar seguros rumo ao que tanto desejamos.
De facto, o amor é simples… Nós é que o complicamos.
Sinto-me: Em crónica