Pois é, hoje a Titi resolveu pregar-me o susto da minha vida. Visto que tem uma espécie de ferida/problema de pele no pescoço, resolvemos tentar resguardá-la de sair de casa (apesar de ela não andar na rua, mas quando abrimos a porta, escapa-se sempre um bocadinho).
Estávamos a jantar, e estranhamente, tudo estava tranquilo. Geralmente, ela ronda-me as pernas, chama a atenção, coça as unhas nas minhas calças, tudo para que lhe dê um pouco de comida. Mas hoje, nem sinal dela.
Quando acabamos, fui em busca dela.
"Titi, titi!". Nada.
Não sei como, olho para a janela do quarto dos meus pais, que dá para o telhado da parte da frente da casa. A janela tinha uma frincha aberta. Uma frincha, com tamanho suficiente para a Titi passar. O coração parou-me. Acelero para a janela, a imaginá-la a passar por aquele espaço. Abri, olho para a esquerda, para os telhados que se seguem ao meu. Nada.
Olho para a direita, e vejo um gato sentado a olhar para mim, dois telhados ao lado. e reconheço uns olhinhos assustados. Uns olhinhos que reconheceria em qualquer lado.
"Titi...?", digo a medo.
E começa o choro. Era ela, não havia dúvida. Desesperada, ela andava nas telhas, sem saber como vir ter comigo. Aí, o coração disparou-me, e deixei de pensar.
Chamei, chamei, mas ela não compreendia como vir ter comigo. Saltei janela fora, tentando sempre chamá-la, mas ela chorava apenas, confusa.
Resolvo, num rasgo de coragem, ir buscá-la. Não pensei em nada. Simplesmente saí para o telhado e comecei a andar. Ao passar para o telhado seguinte, veio-me o pensamento "Assim vais cair, matas-te.".
Decidi que seria mais seguro ir sentada, pois poderia medir melhor o meu equilíbrio e a resistência e estabilidade das telhas. E nos segundos em que pensava isto, avançava sentada, com os olhos postos nela, e o choro dela nos meus ouvidos. Tentava tranquilizá-la, mantê-la focada em mim enquanto um gato na rua já miava em resposta ao chorar dela.
A meio do caminho, começo a pensar "Como vou conseguir trazê-la?? Preciso das mãos para avançar sentada, e para segurar nela... E se me foge?". Afastei as preocupações, "Na altura vê-se, ela precisa de socorro".
Sempre a falar com ela, para mantê-la focada em mim (a dada altura começou a aproximar-se da beira do telhado), lá fui avançando, cega, surda pelo chorar da minha pequenota.
Finalmente, chego junto dela. Estava assustada quando a agarrei e a segurei no colo. Primeiro ela teve instinto de fugir, com o medo, mas não sei como, manteve-se comigo. Talvez ao mesmo tempo sentisse que eu não deixaria que nada de mal lhe acontecesse, e que estava a ser socorrida...
A segurá-la só com um braço, usei o outro como impulso para me ir movendo sentada nos telhados, sempre a rezar para que ela não começasse a tentar fugir com o medo. Ela chorava na mesma, com as unhitas agarradas à minha roupa. Eu falava-lhe a tentar tranquilizar.
Acho que foi a caminhada mais longa que já fiz. O tempo parou, perdi a noção das distâncias.
Quando me vi descer para o meu telhado, levantando-me com ela ao colo, os meus olhos só viam a janela, no desejo louco de a pôr lá dentro, em segurança.
Quando finalmente cheguei ao beiral, ela fez impulso para ir para dentro, e pousei-a na beira, vendo-a entrar em segurança.
Entrei também. Não sei como estava. Nervosa, vazia, com medo. Nunca me tinha visto em semelhante situação. Mas ao mesmo tempo feliz, de ter conseguido ir buscá-la em segurança.
Segundo a minha mãe, meia hora depois eu continuava branca como a cal...
Nota mental, fechar sempre as janelas...
Sinto-me: Feliz com o salvamento de sucesso
Estávamos a jantar, e estranhamente, tudo estava tranquilo. Geralmente, ela ronda-me as pernas, chama a atenção, coça as unhas nas minhas calças, tudo para que lhe dê um pouco de comida. Mas hoje, nem sinal dela.
Quando acabamos, fui em busca dela.
"Titi, titi!". Nada.
Não sei como, olho para a janela do quarto dos meus pais, que dá para o telhado da parte da frente da casa. A janela tinha uma frincha aberta. Uma frincha, com tamanho suficiente para a Titi passar. O coração parou-me. Acelero para a janela, a imaginá-la a passar por aquele espaço. Abri, olho para a esquerda, para os telhados que se seguem ao meu. Nada.
Olho para a direita, e vejo um gato sentado a olhar para mim, dois telhados ao lado. e reconheço uns olhinhos assustados. Uns olhinhos que reconheceria em qualquer lado.
"Titi...?", digo a medo.
E começa o choro. Era ela, não havia dúvida. Desesperada, ela andava nas telhas, sem saber como vir ter comigo. Aí, o coração disparou-me, e deixei de pensar.
Chamei, chamei, mas ela não compreendia como vir ter comigo. Saltei janela fora, tentando sempre chamá-la, mas ela chorava apenas, confusa.
Resolvo, num rasgo de coragem, ir buscá-la. Não pensei em nada. Simplesmente saí para o telhado e comecei a andar. Ao passar para o telhado seguinte, veio-me o pensamento "Assim vais cair, matas-te.".
Decidi que seria mais seguro ir sentada, pois poderia medir melhor o meu equilíbrio e a resistência e estabilidade das telhas. E nos segundos em que pensava isto, avançava sentada, com os olhos postos nela, e o choro dela nos meus ouvidos. Tentava tranquilizá-la, mantê-la focada em mim enquanto um gato na rua já miava em resposta ao chorar dela.
A meio do caminho, começo a pensar "Como vou conseguir trazê-la?? Preciso das mãos para avançar sentada, e para segurar nela... E se me foge?". Afastei as preocupações, "Na altura vê-se, ela precisa de socorro".
Sempre a falar com ela, para mantê-la focada em mim (a dada altura começou a aproximar-se da beira do telhado), lá fui avançando, cega, surda pelo chorar da minha pequenota.
Finalmente, chego junto dela. Estava assustada quando a agarrei e a segurei no colo. Primeiro ela teve instinto de fugir, com o medo, mas não sei como, manteve-se comigo. Talvez ao mesmo tempo sentisse que eu não deixaria que nada de mal lhe acontecesse, e que estava a ser socorrida...
A segurá-la só com um braço, usei o outro como impulso para me ir movendo sentada nos telhados, sempre a rezar para que ela não começasse a tentar fugir com o medo. Ela chorava na mesma, com as unhitas agarradas à minha roupa. Eu falava-lhe a tentar tranquilizar.
Acho que foi a caminhada mais longa que já fiz. O tempo parou, perdi a noção das distâncias.
Quando me vi descer para o meu telhado, levantando-me com ela ao colo, os meus olhos só viam a janela, no desejo louco de a pôr lá dentro, em segurança.
Quando finalmente cheguei ao beiral, ela fez impulso para ir para dentro, e pousei-a na beira, vendo-a entrar em segurança.
Entrei também. Não sei como estava. Nervosa, vazia, com medo. Nunca me tinha visto em semelhante situação. Mas ao mesmo tempo feliz, de ter conseguido ir buscá-la em segurança.
Segundo a minha mãe, meia hora depois eu continuava branca como a cal...
Nota mental, fechar sempre as janelas...
Sinto-me: Feliz com o salvamento de sucesso












