Hoje, pela segunda vez, lidei com a morte na aula prática do hospital. Hoje, de uma forma mais próxima e mais activa.Não foi fácil... Confesso que lutei contra as lágrimas, e me obriguei a racionalizar toda a situação.
O choque veio pelo simples facto de estar a segurar um animal, pensando que iria ajudar no seu tratamento, e depois ouvir dizer "é para eutanasiar". No referido caso, era uma situação de doença que já se tentara tratar e não tinha solução, e dada a gravidade, não havia escolha.
Primeiro tive vontade de fugir, de chorar por aquele ser à minha frente, que eu sabia estar vivo naquele momento, e ignorando que, dali a minutos, não mais viveria naquele corpo.
Fiquei. Imaginei-me no lugar dele, prestes a terminar a vida, e estar só.
Fiquei. Imaginei-me a sentir no fim, e não ver ninguém conhecido.
Fiquei. Imaginei-me a morrer de modo que não compreendesse, sem a companhia dos meus entes amados.
Quis confortá-lo de algum modo. Ele pareceu sentir isso. Toquei-lhe na cabeça, fazendo um carinho e lutando contra o enorme conflito dentro de mim, e quando ele baixou a cabeça e a pousou suavemente na minha outra mão, deitando-se, percebi que estava no lugar e momento em que era necessária.
Dali em diante, mantive a minha mão sob aquele queixo tranquilo, ao mesmo tempo que acariciava a cabeça dele com a outra mão. Tentei com todas as forças transmitir-lhe tranquilidade e confiança, mas sobretudo, muito amor. Queria que aquele animal, prestes a terminar a sua viagem, sentisse que não estava só.
Colocado o catéter, também a pata foi repousada na mão onde já estava a cabeça. E assim o segurei, enquanto o medicamento fatal era administrado. Dupliquei a dose de amor, sussurrando-lhe ao ouvido "está tudo bem, querida...".
Senti-a estremecer ligeiramente, e pouco depois, foi auscultada. Só algum tempo depois de ouvir que o coração tinha parado é que parei de lhe acariciar a cabeça macia. Mas mantive-a em repouso na minha mão até estar dentro do saco para ser cremada.
Apesar da frieza que a situação exige, senti-me feliz por, pelo menos, ter contribuído de algum modo. Resta-me apenas dizer-lhe agora, a essa estrelinha, "És e serás sempre linda..."...
Que um anjo te cuide e oriente.



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